quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O conto en portugués

O Velho Firmino rondava-nos vagamente por ali, sempre absorto, extraviado, soprando no ar ensopado misteriosas ladainhas. Eu via-o descer as escadas tropeçando em aliterações:


“E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo.”

Uma espécie de escuridão escapava-se dele, como de um abismo, enquanto declamava Cruz e Sousa:

“Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

A Fernando Pessoa, esse, amava-o ainda com maior fervor. A ele e a toda a sua legião de heterónimos. Rezava-os:

“Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.”

Eu deixava-me afundar no ar de torpor da tarda tarde. Estendia-me numa das redes e logo caía num sonho rápido, em algum lugar ainda mais a sul, entre torrentes de água fria, sob um céu nu e metálico, nalguma praia de veludo refrescada pela brisa salgada do mar. Despertava minutos mais tarde, encharcado em suor, louco de sede, sufocado por aquele ar de ácaros, saía pela porta aos tropeções, cruzava a rua, e desfalecia de bruços no balcão do bar em frente, implorando pelo amor de Deus uma cerveja estupidamente gelada.

Chegara ali como um náufrago, de mochila às costas, e logo me fascinara o improvável alfarrabista, ou sebo, nome mais comum no Brasil, ocupando por inteiro os dois andares de um fatigado casarão colonial. Se eu fosse alfarrabista teria imenso trabalho para organizar a minha loja de forma a que parecesse naturalmente desorganizada. Um alfarrabista organizado, metódico, sugere-me algo vagamente monstruoso, capaz de ofender a ordem natural das coisas, um pouco como um lagarto com duas cabeças, um advogado ingénuo, um general pacifista. A maioria das pessoas que frequentam alfarrabistas gostam de pensar que caminham entre o caos, e que em meio àquele grave e silencioso tumulto podem, de repente, tropeçar na primeira edição d´ Os Lusíadas, ao preço de um romance de Paulo Coelho. Houve um tempo, romântico, em que essas coisas podiam realmente acontecer. Um tempo em que os alfarrabistas ainda respeitavam a desordem. Os novos profissionais desta área são, desgraçadamente, muito bem informados e ainda melhor organizados. No sebo do Velho Firmino Carrapato, porém, a desordem era legítima e muito antiga. Três gerações de Carrapatos haviam contribuído com o seu demorado labor para aquele esplêndido caos. Os livros multiplicavam-se, empilhados pelo chão, ou desalinhados por metros e metros de incertas estantes em alumínio, sem outra lógica que não fosse a da sua chegada ali. O Velho Firmino dispusera cinco ou seis redes amarradas às colunas, junto às largas portadas abertas para a rua, de forma que era possível folhear os livros com alguma comodidade, rezando para que a brisa da tarde fosse capaz de abrandar o calor, sim, mas não forte o suficiente para transformar em irremediável pó, pura poeira erudita, os papéis antigos.

Firmino gostava de mim. Estranhara ao princípio o meu sotaque – de onde vinha eu? Angola?! –, olhara-me perplexo:

“Na África?! E lá falam português?...”

Disse-lhe que sim, que falávamos português, tal como muita gente em Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor, e, é claro, em Portugal. Não, isso não, contestou o velho, em Portugal não. Os portugueses já mal falam português. Na verdade, acrescentou, nem sequer se pode dizer que falem, isso carece de demonstração. Ele vira, meses atrás, um filme português e não compreendera uma única palavra. Os actores emitiam uns vagos murmúrios, mantendo a boca fechada, como se fossem ventríloquos, com a diferença de que os bons ventríloquos falam pelo próprio umbigo, ou o alheio, falam pelos cotovelos, falam inclusive pela boca fechada de um português, e sempre com relativa clareza. Argumentei, já um pouco irritado, que isso tinha a ver com a deficiente qualidade técnica do som dos filmes portugueses, bem como, é certo, com a má dicção de alguns dos actores, e depois dei o braço a torcer, e concordei que sim, que os filmes portugueses deviam ser exibidos com legendas, não apenas no Brasil mas também em Portugal. Estávamos nisto quando, sereno como um milagre, entrou na loja um português. Era um homem franzino, e no entanto sólido e elegante, com o crânio rapado, uma barbicha rala, bem desenhada, uns óculos de aros redondos, em prata, que deviam ser herança de algum remoto antepassado.

“Boa tarde! Posso entrar?”

Também ele falava sem abrir a boca, mas parecia simpático, de forma que o chamei, apresentei-lhe o alfarrabista, e em breves palavras dei-lhe conta da nossa querela. Um pequeno clarão iluminou os óculos do português e ele sorriu. A questão recordava-lhe uma tese que Agostinho da Silva defendia. Talvez a tese de Agostinho nos parecesse um tanto bizarra e sem suporte científico – mas era poética. Disse isto e ficou muito sério:

“A poesia acerta mais do que a ciência. Na natureza, por exemplo, a beleza é utilitária, isto é, não existe no universo fulgor sem serventia. Se os cientistas fossem à procura da beleza ao invés da funcionalidade chegariam mais depressa à funcionalidade.”

Segundo Agostinho da Silva as línguas afeiçoam-se às geografias que colonizam. Num horizonte amplo, desafogado, o sotaque é mais aberto, e numa paisagem fechada ele tende a fechar-se. Assim, no Brasil, em Angola ou em Moçambique as pessoas falam a nossa língua abrindo mais as vogais, e nos Açores, na Madeira, em Portugal continental, mas também em Cabo Verde, fecham-nas.

Foi assim, através da poesia, que o português conquistou o árduo coração de Firmino Carrapato. Naquela tarde fossou tranquilamente pelos salões, sem pressa, não hesitando em desfazer e refazer as pilhas poeirentas. Quando a luz já começava a declinar chamou o velho. Firmino foi estudando com vagar os livros que o português escolhera. Lia alto o título, via o estado da lombada, sopesava-os. Um deles, um grosso volume ricamente encadernado, pareceu intrigá-lo:

“Discurso sobre o Fulgor da Língua? Foi um doutor daqui, do Maranhão, que escreveu isso, mas nunca ninguém o leu. Tem a certeza que quer levar?”

O português assentiu com a cabeça. O velho murmurou qualquer coisa (pareceu-me reconhecer um verso de Pessoa) e depois encolheu os ombros:

“Tá bom. Esse eu ofereço...”

Uma semana depois dei com o português sentado num bar de rastafáris. Estava feliz como um rio. Antes que eu lhe perguntasse alguma coisa mostrou-me um papel:

"Quem achar este bilhete queira por favor dirigir-se ao meu advogado, em São Luís do Maranhão, com o exemplar do livro onde o encontrou”. Vinha depois o nome e o endereço do advogado.

O português sorriu:

“Você não vai acreditar: herdei um casarão em Alcântara!”

O bilhete fora escrito pelo autor do grosso volume que o Velho Firmino lhe oferecera. O infeliz falecera anos atrás, desiludido com a desatenção do mundo, mas não sem antes ter redigido um testamento em que doava o palacete da família a quem quer que provasse ter comprado e lido o seu único livro. O português exultou:

“E sabe uma coisa? O livro é bom!”




6 comentários:

  1. A min pásame unha cousa. Que cando leo algo en portugués preciso de lelo en voz alta. E imaxinar que algún portugués mo está a ler a min. Porque na oralidade o portugués é meu irmán. Un irmán do que teño morriña porque hai tanto tempo, séculos, que non o vexo... E na escrita véxoo alleo. O código faise difícil, estrano, tan pouco accesible...

    A lingua non deixa de ser tal e como naciu, un ente oral, un suspiro sonoro, a vibración do tímpano... E a escrita ese invento moderno, clon malogrado que nunca dá chegado a ser coma a fala. Sempre queda atrás. Os colectivos propoñen reformas ortográficas, para que a escrita apille á fala, pero o certo é que sempre a leva diante, lonxe, demasiado rápida para seguirlle o ritmo.

    A escrita é útil é necesaria. Pero non traizoemos a lingua pensando que a súa manifestación máis importante é esa. A lingua foi, é e será sempre fala.

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  2. Empecei a ler e costaba un pouco, despois é un conto que se le como quen bebe auga... Gustoume moito porque síntese na lectura un pouco do que vai falando. A mín encántame o son pechado do portugués, máis que o carioca. É curioso o que as persoaxes opinan sobre a súa lingua neste conto, sobretodo sen que o portugués teña unha competencia con outra lingua no seu país, e ainda así algunha xente se sinta allea á súa lectura?

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  3. Eu ó contrario que Iria Dominguez prefiro leélo tal cual ou que mo lean tranquilamente, porque si o leen moi rápido entón si que non me entero.Isto tamén depende da zona e da forma de falar da persoa. Dende o meu punto de vista, pódense sacar semellanzas e diferenzas coa nosa lingua galega.O Portugués está moi diversificado(algúns lugares de Africa e porsuposto Brasil, que é o caso máis coñecido) comparado co galego(só na nosa comunidade). As semellanzas quizais sexan entre outras que son "linguas irmáns",o que nos permite un aprendizaxe máis doado do portugués e así poder desenrolarnos mellor nesa lingua a nivel social e incluso académico.

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  4. Primeiro lin o texto en italiano, e aínda que me custou un pouco, a medida que avanzaba, fun comprendendo o conto, a pesar de que algunhas cousas non as pillei. E agora que o lin en portugués moito mellor.
    Eu non sei italiano nin portugués, aínda que o portugués resulta máis doado pola similitude co galego, e teño falado con xente portuguesa e entendela perfectamente. Na lingua escrita o léxico panrománico é moi fácil de deducir nas linguas románicas e isto facilítanos moito o proceso de aprendizaxe. Para un galego, por exemplo, sería moito máis fácil aprender italiano que para un árabe, polo feito de seren as dúas linguas románicas e proviren do latín.

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  5. Gustoume moito este conto. Un conto sinxelo pero á vez cheo de matices moi interesantes. No que respecta ó tema lingüístico, podemos destacar as difucultades que parece ter o Vello Firmino para entender o portugués de Portugal, xa que segundo el di, nos filmes portugueses os actores "falan coa boca pechada". Este aspecto pon en tela de xuízo esa idea ríxida que temos sobre lingua estándar, e pon de manifesto o feito de que moitos lingüistas están xa a falar de "brasileiro" ó referirse ó portugués falado no Brasil.

    Relacionado con isto, quería salientar tamén o comentario de Iria Domínguez, que describe tan ben a sensación de estar a ler unha lingua que parece moi allea a nós, cando realmente é a nosa irmá. Unha lingua que semella estrana na escrita, pero que á vez é tan próxima na oralidade, especialmente se pensamos no portugués do Brasil ou doutras zonas de África, como ben dixo Katya.

    Por outra banda, o conto fala -a través da metáfora da nota agochada no libro e do testamento-, da importancia da lectura coma unha ferramenta que serve para enriquecer as novas vidas. No caso do home portugués, despois de mercar e ler o Discurso sobre o Fulgor da Língua, el herdou un palacete, algo material e tanxible. Pero moitos de nós, podemos lembrarnos dalgún libro -ou probablemnte de máis dun- que dalgunha maneira marcou a nosa forma de pensar ou ver o mundo. É dicir, tamén herdamos algo dese libro. Somos máis "ricos" despois de ter lido ese libro. Evidentemente non nun sentido material, pero si dende unha perspectiva relacionada co noso coñocemento do mundo que nos rodea, e incluso, de nós mesmos.

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  6. Cando vin este conto no blog creoume certa curiosidade e déronme ganas de lelo, pero cando o empecei a ler en italiano, a verdade é que non me enteraba de nada, e deixeino pasar. Pero agora ao lelo en portugués deime de conta de que me resulta moito máis sinxelo do que eu pensaba ler nesta lingua, ademáis de que fun capaz de lelo bastate apresa. Cando vía unha película en portugués parecíame que non me enteraba de nada e que non era tan doado de entender como semellaba, pero escrito si que se fai moi doado.
    Gustoume ler este conto en portugués, aínda que non entendese algunhas palabras, enténdese ben.

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